Quarta-feira, Maio 28, 2008
Depois de um bom tempo sem atualizar o blog, estou de volta a postar, além de poemas do jacinto, novidades e curiosidades do poeta.
Hoje estou postando o convite do mais novo recital do poeta Jacinto Fabio Corrêa,
1 diário para 2, que ocorreu na noite dessa segunda-feira, 26 de maio de 2008, no teatro Laura Alvim em Ipanema. Sucesso de bilheteria, o recital contou com a produção do Fernando Garcia e arranjos do cantor Paulo Corrêa.
Astros e estrelas por todos os cantos, a poesia do Jacinto tomou corpo e alma em sua voz com ou sem pétala alguma a embargando. Do 1 ao 2, o poeta em seu altar, mostrou que é possível sim, dizer Eu Te Amo com os olhos. Afinal,
" Eu te amo
é o grito de maior coragem para um amante.
Entre tantos amores do mundo
o meu verso. "
Obrigada Sempre!
Quarta-feira, Abril 18, 2007
Temporada
(à Margareth)
Quando pinto apenas metade
do rosto, em minhas épocas de
palhaço, é por pura insegurança de
artista em constante re-estréia. O
recomeço está vinculado ao
passado, e encabulo pelas
possibilidades do acaso que virá.
Quantos serei? No espelho, à
frente, é menos dolorosa a
veemente necessidade de uma nova
versão para a arte: o lado nu do
rosto admite a fantasia (não sei se a
cumpre); o outro, pintado,
mantém-se atento à realidade (não
sei se a integra). Histórias distintas e
não distantes. Estou inteiro a cada
ato. Assim, mantenho, entre
desesperos e gargalhadas,
semi-identidades naturalmente
autênticas.
Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007
Pedaços (XXXVI)
Tenho a necessidade de
confundir. E o esquecimento de
esclarecer mais tarde. Minha
esquizofrenia é diferente: meu eu é
anterior a mim e ao nascimento da
idéia do outro.
Pedaços (XXXVII)
Lembro / a aflição/ , /a culpa/ ,
/o medo/ , /a distância/ ; o alívio/ , /a
alegria/ , /a coragem / , /o esbarro/ .
Opostos não contrários. E nada me
atinge a certeza plena da escolha
definitiva.
Filho do que posso ser,
apenas a luta e o prazer me dirão.
Eco
Minha voz alcançou o nada e
pariu o eco. Reuni a multiplicidade
de mesmas sílabas mesmas de
sílabas ocas e mesmas - e criei a
linguagem calada.
Pedaços (XXXVIII)
Minhas idéias são
completamente explícitas e
redigíveis. A execução delas, no
entanto, é apenas um rascunho.
Minha grande obra-prima está na
inconsciência prática (que ainda
desconheço).
Segunda-feira, Janeiro 22, 2007
Pulsante
(À Anna)
A bruxa sai do castelo em
plena manhã, enfrenta o sol e
caminha seguramente pelas ruas da
pequena cidade mais próxima.
Certa do que faz.
A olham.
A xingam.
A apedrejam.
Ela, com um simples estalo de
dedos, aniquilaria a todos. Mas
apenas os deixa estáticos. A bruxa
tem planos.
Levanta-se.
Ajeita-se.
Retoma o caminho.
Vai à loja de brinquedos do
lugarejo e apanha na vitrine uma
caixinha de música ¿ dessas que
possuem uma linda dançarina
colada na tampa. A cidade continua
imóvel: feitiço eficaz. A bruxa dá
corda no brinquedo, e escuta a
suave canção vendo a bailarina
mover-se. Alegremente assustada,
pega a caixinha e guarda no
boldo.
De volta à rua, sobe na
vassoura e abandona a cidade em
alta velocidade, com o coração na
boca. Sua inocência ainda estava
viva.
Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
LIVRO: Pedaços, O Parasempre da Hora
AUTOR: Jacinto Fábio Côrrea
1
Longos textos me cansam.
Escrever deve ter
mesmo
a breve eternidade de uma respiração.
2
O que parece ser
irremediavelmente parasempre é.
3
Nada sou
mas nada mesmo
além de mim e mesmo.
4
Amanhã será dia de escrever cartas.
Preparo a saudade.
5
Todo mundo na rua se protegia.
Mas eu queria a chuva
Mas eu queria a chuva
´´ ´´ ´´ ´´ ´´
´´ ´´ ´´ ´´ ´´
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´´ ´´ ´´ ´´ ´´
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´´ ´´ ´´ ´´ ´´
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´´ ´´ ´´ ´´ ´´
´´ ´´ ´´ ´´ ´´
que te fazia querer proteção.
6
Um punhado de estrelas
lhe fez juntar as mãos:
era preciso detê-las
para não se perderem.
Meus olhos, cúmplices, acompanhavam.
Por pouco, muito pouco, pouco mesmo
quase morri de ciúmes.
7
Não demos as mãos.
Se os dedos se enlaçassem
nunca mais amanheceria.
8
Aqui, do lado de fora de sua casa
de onde preciso partir
a chuva não pára.
9
"Contenha-se".
e eu aprendi a chorar de verdade.
10
Garantiu que me daria a lua.
Pois sim.
Raios, que nos partem.
11
O absurdo do sim é a desistência.
12
Amar é esquecer que não se esquece.
13
Esquecer se esquece.
Poder lembrar é que são elas.
14
Tudo quanto é partida
eu só reconheço depois.
15
Não tenho dúvidas.
Tenho impossibilidades.
16
Penso
logo
insisto.
17
Insistir vem de insistência.
Perdoar vem de não conseguir ficar longe.
18
Meu senso de colocação é falho.
Sempre volto aonde estive.
perdão por não ter esquecido.
19
A regra número um para a insônia
é respirar pausadamente
mantendo o coração ritmado.
A regra número dois
é tentar mesmo esquecer.
20
Esqueci que pela manhã
estou sempre de mau humor.
Ri um riso tão descarado e inteiro
que acabei me engasgando.
21
Minha inocência é mesmo distraída.
A ponto de me fazer retribuir cumprimentos
a desconhecidos na rua.
22
Quais foram mesmo suas últimas palavras?
(Até) logo
(Até) mais
(Até) nunca mais.
Os ecos sempre confundem meu desejo.
23
Hoje somos duas cidades distintas.
A sua, metrópole desconhecida
A minha, pasto de mar.
Nos reencontramos no infinito.
Foi lá que religiosamente nos perdemos.
24
Viria me ver
não fosse o temor
de voltar à casa e reconhecer
ainda que vendado
o local exato onde escondeu as vertigens.
25
Me deixa sozinho
enfrentando olhos alheios
tão menores que os seus.
Até quando saberá me esquecer?
26
Voltará
no dia em que descobrir
ser incerto voltar.
27
Meia volta
(o barulho da porta)
Vou ver
(é apenas o ladrão).
28
Tesouras enferrujadas
rasgam os tecidos do céu.
Chorem adiante
tão próximas a mim
todas as saudades partidas.
29
Deus inventou a felicidade
para eu ter com que me atrapalhar.
30
Névoa
para quem não sabe
é o que cabe a Deus de miopia.
31
(A meu pai)
De nosso próximo encontro
o poente é realmente visível?
32
A hóstia
que me avisam ser proibido morder
eu mordo.
E provo teu corpo vivo
que se mexe em minha boca.
É como perdidamente eu acredito.
33
Penso em Deus jogando ludo comigo.
Eu ficaria feliz se lhe deixasse ganhar.
34
Não mais tecerei compromissos
nem mesmo com o que há de melhor.
Permitirei uma liberdade estranha e vulgar
exército de um tanto da dor
acrobacia de um esforço sem tamanho.
Terei trabalho.
É que em meio a todo pressa
não sei esquecer o bilhete do metrô em casa.
35
Eu
com tanto pra pensar
sinto.
36
Entre truques e trinques
drunks e drinks
a força oculta de seus olhos.
Eu podia ver o que você não
distraidamente esquecia.
37
Perto de seu esconderijo
uso o disfarce de óculos escuríssimos.
Em plena chuva de junho.
Só quero de volta
sem que saiba que lhe roubei
o desejo que me é devido.
38
No sonho, me dizia:
¿Não me culpe por estar vazio de você.¿
Eu não culpo.
É a poesia que lamenta.
39
A palavra tem o dom
de tornar minha dor bonita.
40
Sou tão idiota na dor
que sofro mais do que aprendo.
41
descobri que escrevo porque não sei morrer.
42
Não quero que me pergunte
como vão as coisas.
Nada vai.
Tudo está.
As sobremesas têm me salvado do caos.
43
A mancha de café na mesa
denuncia o infrator:
eu:
tão desastrado e sem modos que sou
por rever-te.
44
fecha todas as portas da casa.
As janelas esquece, seguramente abertas.
Sabe que se tratando de reencontros
eu só chegaria voando.
45
Aquele que descobre
à primeira tentativa
o perfume do outro
merece o perdão
que um dia pedirá..
46
Matar-me enquanto lhe mato.
Pra que tanta força
se nunca morreremos?
47
Assim, assado.
Sou mesmo de tenebrosos ciúmes.
48
O cinema é ao lado do bar
que é na boca da calçada
que é no limite da avenida.
Quando custa a proximidade real das coisas?
49
Não me venha com desculpas.
Apenas venha.
50
A dor é para ser mesmo lamentada.
A alegria para ser mesmo vivida.
Desconfio que acabo de nascer.
51
Às vezes multiplico ondas
no lugar de sustentar a maré.
Não entendo nada do mundo.
52
Nunca corro atrás do tempo.
Tenho medo que me alcance.
53
Duvidaria se ouvisse: ainda.
Mas não é esse o nome do que não termina?
54
O grande amor, a essas horas, dorme.
Todos os meus sonhos ainda lhe cobrem.
55
Quando, de quando em vez
de vez ou enquanto
verifico se respira.
Ao lado, sem saber distante
se esquece de mim durante o sono.
Normal, diriam
Me sinto traído.
Sol sem lua.
Lua sem rua pra clarear
Rua sem poça para refletir meus passos.
Passos, apenas passos
do passado que vem.
Tolas rimas me inibem: amante
apenas o que sou
apenas o que espero ser
ainda que ao lado durma
tão profundamente cansado.
Suas mãos são mais lindas que o esperado
O esperado que eu sempre espero
que quase nunca recupero num grito dado
sem querer e sem permissão
se te contasse que quando
que durante o enquanto que é mesmo quando
a lua nos cobre,por sobre a cama
talvez acreditasse sem tanto acreditar.
Coisa de poeta, pensaria.
Eu também fingiria acreditar
que aceitara a única versão dos fatos:
a lua vem, nos é lençol de luz, e fica
até que adormeçamos.
É de um sono profundo, que cuido
para que nem ali sofra.
Doer dói muito
e não quero que a vida lhe doa.
Deixe que eu a enfrento.
Entenderia saber que quando lhe vejo
tudo é parasempre?
O amor, parasempre
A dívida, parasempre
O temor, parasempre
A tontura, parasempre
O aluguel, parasempre
O insuperável, parasempre
Seus pés são sempre tímidos
Ao contrário da boca, parasempre ávida
e iluminada como lua de lua cheia.
Seu beijo me confunde
pele e saudade do beijo que ainda virá
Seu beijo me cobre
de alucinação e sensação de desperdício:
é tanta luz que recebo, tanta luz
que acho ser pecado ou ganância.
Que eu quero, parasempre que eu quero
Primariamente, selvagemente
Infantilmente, desbragadamente
Indecentemente, timidamente
Seu beijo é o que posso entender
por ¿teu olho brilha¿
Seu beijo é qualquer percurso
que sua mão desenhe em meu corpo.
Acorda.
56
Os tombos eram macios.
Saudade
57
Tenho tantos pudores.
Às vezes esqueço de trair o que já não há.
58
Sempre esperei que me telefonassem.
Mesmo dando o número trocado.
59
Abandonar o que se tem de certo
algumas vezes é a única saída.
60
Estou na vida de muitos
como franco atirado.
De moedas.
61
A tal criatura
O tal entenderia
O tal ser humano
valeria um tostão furado
se um tostão valesse.
62
Sou feito de divindades.
Divinamente envelheço.
63
A cor mais absolutamente divina é
o vermelho-pétala-de-rosa-molhada.
É de uma chuva mesmo tão divina
que orvalha as mãos traidoras
de quem a colhe a flor.
64
Mel não é uma cor saborosa
como certamente diriam
ao tentarem traduzi-la.
Mel é uma cor de zumbidos visuais.
65
Não pretendo repetir ninguém.
Tenho o saudável hábito
de me atrapalhar com o próximo:
nunca sei o que dar de presente
66
Oferecer sinceros desejos
é multiplicar o pão.
67
As aparências enganam.
Somente aos desavisados.
68
Era um instante de tamanho encontro
ou de tamanha solidão
que ao atravessar a rua
dei a mão a mim mesmo.
69
Às vezes acontecia uma pausa.
E eu distraída ou criminosamente
tinha sono em vez de amor.
70
Suas lembranças do exato instante passado
são de um passado tão exato que apenas instante.
71
A memória da máquina
é a próxima peça.
72
Não sei falar de celular.
O que sei dá para falar
de céu e luar.
73
Não valho uma gota de sangue derramado.
Mas quem sabe uma gota de chuva orvalhada?
74
Sou aquilo que apareço.
75
No momento propício
darei as boas-vindas à alegria.
Brincarei tantos carnavais
que só perceberei necessitar de descanso na velhice.
76
Gosto de frases.
E de sinônimos que se ocultam.
Eu. Você.
77
Desgosto do carinho
pelos menos uma vez por semana
para que me prove o contrário.
78
Solto a ânsia em buracos de rua
Cresce
Toma as calçadas
Transforma-se em monstros japoneses de TV.
Apaixonado
não aceito ir ao cinema
sem a promessa de pipocas.
79
No desejo
há sempre um preço a ser imaginado.
80
Todo encontro é sempre
um jogo de grandes riscos.
De olhos bem abertos mergulhei
para ver o mar que não se vê.
Eu vi.
81
O bilhete que te cegará
irá escrito em chinês.
Era exatamente isso que eu queria dizer.
82
Ainda me deve um adeus oficializado.
Uma carta.
Um poema.
Um grito.
Uma desculpa vulgar.
Uma falsa promessa.
Me deixou até sem navios para ver.
Apontou o mar.
Para não fugir do costume, me afoguei.
83
Em algum distante porto
Guarde o bom senso
para quando se perder de mim.
No amor não basta que um esteja cego.
84
Na rua tínhamos caminhos tão opostos.
E o acaso não foi o suficiente.
85
Quem teria recolhido pelas ruas da cidade
os restos de minha dor?
Hoje alguém também te ama.
86
Impunemente sofro.
Deveria aposentar-me por tempo de serviço.
87
Desejei-lhe sucesso.
Mesmo que um dia não mais se lembre
Mesmo que um dia diante de fotografias
pergunte ¿ quem é este aqui?¿
88
Minha emoção, ferida, expõe-se
a olho nu e ao ridículo
de competir com as estrelas.
Vence de mil a zero.
Realmente ele não saberia seguir-me.
89
De costas para o mundo
a certeza do local exato
onde você me espera.